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"Achei que a caneta ia tirar minha fome por completo, e não tirou. Será que está errado comigo?" Essa é uma das frases que mais escuto no consultório, quase sempre com uma frustração silenciosa por trás. A pessoa começou o tratamento esperando perder a fome de vez, e quando isso não acontece, conclui que a medicação falhou ou que o corpo dela não responde. Na maioria das vezes, nenhuma das duas coisas se confirma.
A fome que continua aparecendo gera dúvida porque a expectativa estava no lugar errado, não porque o tratamento deu errado. Vale entender o que a caneta de fato faz com o apetite, para parar de medir o sucesso por um parâmetro que nunca foi o objetivo.
O que a caneta faz com a fome, de verdade
As canetas, como a tirzepatida (o princípio ativo do Monjaro) e a semaglutida, agem em hormônios que regulam a fome e a saciedade. Na prática, elas reduzem o apetite e diminuem o chamado ruído da comida, aquele pensamento constante em comer que ocupa a cabeça ao longo do dia. Com menos apetite e menos ruído, fica mais fácil comer menos sem viver brigando contra a vontade.
Repare na palavra: reduzir. O efeito é diminuir a fome a um ponto em que você consegue seguir o plano alimentar com mais facilidade. Apagar toda e qualquer sensação de fome nunca foi o objetivo, e nem seria saudável. A fome é um sinal fisiológico normal, e o corpo continua tendo o direito de senti-la.
Por que sentir alguma fome continua sendo normal
A resposta à medicação varia de pessoa para pessoa e de dose para dose. Algumas sentem o apetite cair muito, outras notam uma redução mais discreta. As duas situações podem estar dentro do esperado.
Sentir fome em um dia mais corrido, ter vontade de um doce depois do almoço, querer comer em um momento de estresse: nada disso significa que a caneta parou de funcionar ou que o seu corpo é resistente ao tratamento. Significa que você é uma pessoa, com hormônios, emoções e rotina, e não uma máquina que se desliga. A medicação ajuda a equilibrar a balança da fome e da saciedade. Ela não promete zerar um dos lados.
E se a fome voltou a aumentar com o tempo?
Algumas pessoas sentem o apetite cair bastante no começo e, depois de um tempo, percebem a fome voltando um pouco. Isso também costuma ter explicação, e não quer dizer que a caneta "perdeu o efeito" de vez.
O corpo se adapta, e existe uma fase de ajuste de dose no início desses tratamentos: começa-se com dose baixa e sobe-se aos poucos, com critério, para o corpo tolerar bem. Enquanto a dose ainda está sendo calibrada, é comum a fome oscilar. Em outros casos, o que mudou foi a rotina, o sono ou o estresse, que mexem com o apetite por conta própria, independentemente da medicação.
O que isso pede é uma conversa no acompanhamento, e não uma mudança de dose por iniciativa própria. É na consulta que se entende o que está por trás da mudança e se ajusta o que precisa ser ajustado. O tratamento com caneta é um processo que se calibra ao longo do tempo, e não um efeito fixo que deveria se repetir igual todo dia.
Qual é o parâmetro certo de "está funcionando"
Quando a expectativa é não sentir fome nenhuma, qualquer fome vira sinal de fracasso, e a frustração toma conta. Por isso eu costumo redirecionar o olhar das minhas pacientes para o que de fato indica que o tratamento está no caminho:
- Você consegue seguir o plano alimentar com menos esforço do que antes?
- O ruído da comida diminuiu, e a comida ocupa menos espaço na sua cabeça?
- A sua relação com o comer está mais tranquila, com menos episódios de descontrole?
- A sua saúde está melhorando ao longo do tempo, no conjunto?
Se a resposta para essas perguntas é sim, a medicação está fazendo o trabalho dela, mesmo que a fome apareça de vez em quando. O sucesso se mede pela sua capacidade de conduzir a alimentação com mais leveza, não pela ausência total de apetite.
O risco de achar que falhou
O problema de acreditar que "a fome não sumiu, logo não funcionou" vai além da frustração. O que costuma vir depois dela é pior. Muita gente, achando que precisa de mais, decide aumentar a dose por conta própria, ou então abandona o tratamento antes da hora. Os dois caminhos são arriscados.
A dose tem critério clínico, e ajustá-la é decisão do médico que acompanha você, não algo para resolver sozinha a partir de relatos de internet. Aumentar por conta própria pode trazer mais efeito colateral sem mais benefício. E largar o tratamento por uma expectativa equivocada é desistir de algo que talvez esteja funcionando bem, só que de um jeito diferente do que você imaginava.
"O objetivo não é apagar a fome, é te devolver o controle"
Gosto de dizer às minhas pacientes que a caneta não veio para apagar a fome, e sim para te devolver o controle sobre o comer. Sou a Dra. Débora Di Matteo, endocrinologista, e essa é uma das conversas mais importantes que tenho no início do tratamento, porque ela evita meses de frustração baseada em uma expectativa que nunca foi realista.
Sentir fome de vez em quando faz parte: é o seu corpo funcionando, dentro de um plano que agora ficou mais possível de seguir. Se você está nessa dúvida, se sente que a caneta "não está fazendo efeito" do jeito que esperava, vale conversar antes de mudar qualquer coisa por conta própria. Leve a queixa para a consulta com exemplos concretos: em que horários a fome aperta, o que dá vontade de comer, como andam o sono e o estresse. Esse detalhe ajuda a entender se o caso é ajustar a dose, mexer na rotina, ou só alinhar a leitura do que esperar. Muitas vezes o tratamento está certo, e o que precisa de ajuste é só a expectativa.
Para entender o tratamento como um todo, do uso à manutenção, veja o guia O depois das canetas.





